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Sexta-feira, Março 28, 2008

Saga da Lua

Gritos de Loucura

- Olá lobinho.

Se eu não estivesse gelado de frio e de medo, os meus membros e músculos paralisados com terror do que poderia acontecer, eu teria me derretido completamente com o calor e a sensualidade da sua voz.

- Ora, ora, não tenhas medo, estou aqui para te ajudar…

Ao acabar de dizer isso ela levantou-se. O som dos seus sapatos a tocar no chão rebentava com os meus tímpanos, enquanto que o seu rosto não largava o meu e com correntes invisíveis me aprisionava o olhar no dela. Ou isso ou chocolate, porque eu gosto muito de chocolate e poderia ser facilmente atraído por chocolate, se calhar ela poderia ser feita totalmente de chocolate, o que seria bom se nos próximos instantes ela me pedisse para eu come-la... coisa que não aconteceu.

- Eu sei que vinhas aqui procurando esclarecimento, um caminho, ou talvez… o que outrora eras…
- Xana, eu suponho… - Consegui falar tentando não ser prostrado por as forças que me invadiam. Ao que ela respondeu com uma sonora gargalhada.
- Vejo que já te falaram de mim. – Ela aproximou-se de mim e agarrou-me o focinho e aproximo-o da sua cara, eu tremi ao sentir a sua respiração tocar no seu pêlo. – Tu és tão fofo. Não consegues sequer imaginar o quanto eu desejo aprisionar-te aqui e seres meu para sempre…
- Skor! – O grito de Kaly ecoou pela caverna e eu senti o poder que a mulher exercia sobre mim a soltar-se e apenas por uns segundos consegui sobrepor a minha vontade á sua. Olhei para a entrar, conseguindo ver a Kaly apontando a sua besta e lançar uma flecha contra a minha opressora. Indo contra todas as minhas esperanças o seu ataque falhou, pois antes de chegar perto de Xana, a flecha congelou e caiu no chão como um bloco pesado de gelo. O olhar glacial virou-se para Kaly, projectando-a para trás como se tivesse sido atingida por uma tempestade e em seguida voltou a focar-se em mim continuando com a voz melosa e sedutora.
- No entanto, como eu ia a dizer antes daquela intrometida se intrometer com as suas… intrometidices, as minhas irmãs, não querem que eu me divirta e querem que simplesmente te ajude. – Ela suspirou soprando para afastar a franja ruiva dos seus lábios. – E eu não quero que as minhas maninhas andem a atazanar-me o juízo porque eu não acredito têr sanidade suficiente para aguentar com as retóricas delas e as leis e… enfim.

No momento em que ela disse enfim eu senti-me desorientado, como se estivesse á muito tempo sem me pôr sobre as minhas patas e agora que me punham no chão ele estava coberto de cascas de banana e pastilhas elásticas, o que seria desagradável se eu caísse mas que parecia ser a única hipótese. Até que, como se nada o fizesse esperar, senti-me bem não havia vertigens não havia submissão, não havia a estranha sensação que cheirava uma loba com o cio… sim eu estava a sentir isso… sou um animal! Dê-me crédito!... Continuando…

- Olha para mim lobo. – Ordenou a mulher mas com uma voz muito mais inocente do que com a que me tinha falado antes. A minha cabeça ergueu-se para lhe olhar nos olhos e então reparei que ao contrário de todo o resto do seu corpo, os olhos eram azuis como o gelo que nos rodeava e possuíam uma simpatia única.
- O que é que tu estás a tentar tramar. – Inquiri eu. É claro que não me ia deixar enganar pela simpatia que eu sentia vinda dela, só podia ser uma manipulação qualquer imposta por ela. No entanto ela limitou-se a sorrir. – Eu não entendo o que se passa aqui!
- Somos quatro irmãs. Cada uma governa o seu espaço no céu e cada uma tem o seu tempo em cuidar do mundo abaixo de nós.
- Vocês… Deusas? – Perguntei com algum temor da resposta. Ela gargalhou um pouco antes de me responder
- Não lobinho, se fossemos Deusas não nos teríamos de preocupar com o mundo. Mas isso são outros assuntos que não são importantes para aqui. O que importa é que… - antes de continuar ela ajoelhou-se á minha frente e passou-me a mão pela cabeça acariciando-me o pêlo. Soube extremamente bem para alem que até á minutos pensava que me ia matar… e até á mais uns minutos pensei que era feita de chocolate. – … Precisamos de pegar em ti e pôr-te como eras…
- Como eu era? Tu sabes como eu era? Tu sabes sobre o meu passado?
- Oh sim. Soube-se muito de ti quando saiste na Caras e na Maria… e noutras revistas de interesse quando os tiranos do mundo estavam na moda. Por acaso foste bem classificado, normalmente em segundo ou terceiro. – Ela mostrou-me um sorriso brilhante e caloroso enquanto me coçava atrás da orelha – Nem queiras saber o quanto fiquei orgulhosa.

Tentei falar-lhe, questionar-lhe sobre o que ela dizia. O que ela queria dizer sobre tirano, as palavras dela faziam crescer o meu medo em lembrar-me do que eu era… e se eu fosse um ser maligno… e… se o que eu era não fosse compatível com o que sou agora, nunca conseguiria viver comigo mesmo com as atrocidades que teria feito.
O caos destruía a minha cabeça com as questões que surgiam mas eu não conseguia reagir, conforme a mão dela acariciava-me o pêlo, eu sentia as minhas energias a desvanecer. Era ela quem fazia isto? Não tive tempo para saber a resposta, os meus olhos fecharam e a ultima coisa que senti foi o seu abraço.

Depois… escuridão.

Não havia nada. Não havia sons, não havia calor ou frio, não havia medo, não havia conforto. Gradualmente comecei a sentir calor, como se duas mãos passassem em cima de mim e me fossem acariciando com uma energia sobrenatural, após esse calor desvanecer apenas havia dor. Uma dor imensa que fazia a minha mente gritar em agonia, numa sôfrega tentativa de me manter ligado a este estado negro de consciência. Minutos passaram mais parecendo horas, o calor desvanecia completamente do meu corpo mas por outro lado a dor também desvanecia e de repente outra vez o nada. Passou mais tempo, não sei dizer o quanto. Só existia escuridão, não havia medo, sensação, nada! Talvez tenha visto uma fila de esquilos a correr á minha frente, ou talvez isso fosse simplesmente culpa da Kaly, mas nada parecia mudar. Até que o calor voltou, temi mais dor mas fui completamente envolvido por ele. Sentia o total do meu corpo e sentia-me estranho como se já não fosse eu.
A luz voltou aos meus olhos como se o sol brilhasse directamente em cima deles. Senti-me confuso e desorientado tentei mexer o meu corpo mas não consegui. Conforme a sensação voltou ao meu corpo, consegui sentir que algo me agarrava, um braço e uma perna cobriam-me enquanto que outro braço passava por baixo do meu pescoço, mas a sensação era tão estranha que não conseguia retirar o pânico da minha mente. O meu olhar começou a focar o mundo que me rodeava e a primeira imagem que a minha mente viu, ainda que desfocada, foi a cara de Xana. O seu sorriso que eu me arriscava a caracterizar de carinhoso, o seu olhar gelado mas que neste momento me transmitia ternura, o seu cabelo vermelho caía por cima de um pêlo negro que nos cobria o chão, o que era algo estranho, pois aquele pêlo era algo parecido ao meu. Gritei de horror e saltei desastrosamente para trás, notei de imediato que a minha voz se encontrava mais aguda, a segunda coisa que reparei foi que algo amarelo apossou-se da minha vista. Após uma tentativa frustrada de retirar essa coisa de perto de mim constatei dolorosamente que estava agarrado a mim, foi então que me apercebi do que era: Cabelo.
O choque inicial quebrou o que restava da minha calma e gritei com todo o ar que tinha nos pulmões durante um bom bocado. Quando a minha voz deu lugar ao silencio observei tremulamente as minhas mãos, delicadas e suaves tremiam perante os meus olhos, tinha braços e pernas em vez de patas e o pêlo que cobria os nossos corpos nesta sala de gelo era nada mais do que o pêlo que outrora fora meu, em cima dele Xana continuava deitada observando-me deliciada com a minha reacção e passando com a sua mão pelo seu corpo.

- O que é que me fizeste? – Gritei, tremendo como um galho verde.
- Precisavas de ajuda, esta é a ajuda e eu disse que te iria dar. – Respondeu-me ainda com o mesmo sorriso na cara.
- Mas… Mas o que tu me fizeste…
- Vê por ti mesma. – Cortou ela erguendo a mão.

Engoli a seco só de ouvir o último comentário por ela feito. Á minha frente ergueu-se uma parede de gelo que tomou uma textura reflectiva e por fim podia ver como me tinha tornado. Tinha uma estatura alta e esguia, com longos e finos braços, tinha olhos azuis e gelados como os de Xana, lábios finos e um nariz bem feito. O meu peito era bastante simples e modesto, enquanto que as minhas ancas podiam parir um exército.

- Eu… - Gaguejei.
- Estás linda. – Continuou Xana espreitando por detrás do espelho.
- Eu era um lobo! – Corrigi-lhe com alguma fúria. – Não uma loba!
- As revelações do físico e as suas linhas nem sempre são claras minha linda. - Respondeu-me ela gargalhando. – Mas se quiseres posso retirar-te esse corpo.
- Não! – Entrevi eu rapidamente antes que ela tomasse uma decisão. Para dizer a verdade estava algo fascinado (se calhar devesse dizer fascinada afinal) – Eu… agradeço.

A Xana veio para perto de mim carregando o meu pêlo nos braços. Sacudiu-o e depois colocou-o em volta dos meus ombros, surpreendi-me ao sentir o pêlo a moldar-se ao meu corpo e transformando-se ao fim de segundos em roupa para me cobrir o corpo todo. O negro agora da minha roupa contrastava com a luminosidade das minhas feições e envolta naquele casaco de pêlo negro o meu porte era algo intimidador e quase irreal. Tremi ao observar-me e por um instante, senti que me conhecia.

Terça-feira, Março 25, 2008

Saga da Lua

Sementes de Melancolia (aka: Pasmassol)

No Sul, longe das montanhas cortadas pela incessante lava, na sombra das suas negras florestas de pinheiros, um guerreiro erguia a sua colossal espada para cortar mais um inimigo em dois. O impacto foi violento e sangrento, a força do colosso quase fez o solo tremer quando desfez o seu inimigo em dois e a sua espada embateu no chão. Ao seu lado, duas mulheres aladas, com as penas das suas asas tão negras como os seus cabelos moviam-se com a agilidade e graciosidade de pássaros a cruzar o céu e elas próprias livravam-se de outros dois adversários enquanto que os restantes corriam pelas suas vidas. Historias corriam pelo povoado do Paladino que Varg mantinha como seu conselheiro como um homem bom e generoso, mas nunca lhes passaria pela cabeça o quanto o contrario ele era em combate.
Após esta pequena batalha, o Paladino sentou-se ofegante, sentia-se a ficar demasiado velho para este tipo de vida, mas ao mesmo tempo não lhe conseguia virar as costas. Mas faltava algo e esse algo só podia ser achado com um grande sacrifício.

- Munin! – Chamou ele, logo de seguida uma das raparigas que o acompanhava aproximou-se dele
- Sim mestre? – Respondeu ela de imediato ao chamamento.
- Preciso que voes… detesto separar-te da tua irmã, mas preciso que voes, que procures o nosso rei.

Ela olhou para a sua gémea sem um único traço de pesar ou magoa, em seguida os seus olhos tornaram-se negro e o seu corpo tombou. Antes de sequer tocar no chão a rapariga tinha deixado de existir dando espaço para um majestoso corvo que se lançou aos céus.
- Bem… agora que a tua irmã se foi embora, tu sabes que nós podia…
Sem qualquer hipótese de acabar a frase o Paladino recebeu um valente estalo da gémea na face que o fez resmungar um pouco. Enquanto isso o corvo já se lançava ao norte, com a mente presa num objectivo e com o seu rumo traçado pelo destino.

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Depois de uma explicação longa e aborrecida sobre as origens dos trolls e dos bichos maus que andavam por ai, passamos ao que interessa. A Kandia começou a explicar-me os sonhos que tenho tido.

“Agora essa rapariga, é algo estranho, mas pelo que me contas ela é uma das quatro irmãs que habitam o monte da lua, diz-se serem antigos espíritos que protegem e olham pelo destino de todas as criaturas. Se elas pedem uma audiência contigo, não te deves demorar. Irei fornecer-te um mapa para encontrares o teu caminho no meio da floresta e algum músculo, pois os perigos são muitos e irás precisar de escolta.”

Nesse momento a troll foi vasculhar os seus armários repletos de objectos estranhos e começou a juntar pequenos frasquinhos junto de um caldeirão que tinha em cima de brasas. Quando se encontrava pronta começou a juntá-los proferindo os seus nomes, muitos deles diga-se de passagem bastante estranhos, como por exemplo: asa de morcego, cabeça de uma boneca de anime, cabelos de gótica e cds de evangencia. Uma mistura estranha mas que parece ter dado resultado, pois sem medo de ser queimada meteu as mãos dentro do caldeirão e retirou de lá um ovo enorme, de seguida lançou o ovo ao chão que se quebrou revelando no seu interior um rapaz. Esse rapaz levantou-se e começou a olhar tudo com um ar espantado dizendo repetidamente “Bring, Bring, Bring”

- Isso é suposto ser o músculo dele? Não passa de um puto. – Pronunciou-se Kaly.

A Troll olhou-a pensativa e acabou por se pronunciar em relação a isso com uma resposta que acabou por deixar Kaly sem saber o que dizer. – Se achas que é pouco, tu vais também com ele. Pois podes estar descansada que até tu o ajudares a acabar esta missão, eu própria não te ajudarei em nada Kaly. – O ambiente do compartimento ficou algo negro e parecia que as duas poderiam atirar-se á garganta uma da outra em poucos segundos por isso talvez fosse melhor intervir.
- Então e os mapas?
- Ah sim, os mapas, vais precisas deles. – Ela vasculhou mais um pouco mais pelos seus velhos armários até remover um pergaminho, soprou nele fazendo voar o que parecia ser uma bem grossa camada de pó. – Este mapa irá levar-vos aos caminhos da montanha. Mas de resto, eles terão de se abrir a vocês. Mantenham-se próximos uns dos outros pois se só um de vocês for escolhido pela montanha os outros não verão os seus caminhos a menos que se mantenham próximos

- Bring, bring, bring…
- O que é que este gajo tem de errado? – Gritou a Kaly apontando para o rapaz.
- Eu não tinha os ingredientes todos, veio com um problema de fala. – Defendeu a Troll.
- Deixem o rapaz em paz! – Entrevi. – Precisamos é de nos pôr a andar daqui para fora! Temos de salvar a Unga!

Ao proferir estas palavras a Kandia lançou-me um largo sorriso mostrando os seus caninos afiados com punhais, ou garras de esquilos. Aquela historia de ser descendente de uma tribo selvagem de Trolls não me parecia tão descabida quando ela sorria, havia um terrível brilho nos olhos que traria medo a qualquer um que não a conhecesse, no entanto, era uma troll carinhosa e cuidadosa, a única real preocupação, era o Jotun que se tinha se tinha erguido na sua cunhada.

- Vá, ponham-se a andar criaturas da magia do norte, o destino espera-vos.
- Antes de ir… porque foi que o seu irmão disse para seguir o cheiro da água? – Perguntei fazendo a Troll gargalhar.
- Ah, aquele velho filho de uma meia-ogre. – Deu mais uma gargalhada e inspirou no seu cachimbo. – Eu sou uma bruxa de água, acho que está explicado.

Com uma explicação estranha e varias preocupações em mente saio da pequena casa cravada no tronco acompanhado agora por dois estranhos companheiros. A floresta estendia-se perante nós com os seus perigos, armadilhas e doces escondidos (por ser Páscoa quando escrevi isto e já comi amêndoas amais) mas agora tínhamos um caminho e eu tinha uma missão e não a iria falhar por nada. Comecei a andar com um passo determinado seguido por Kaly e o rapaz do bring, bring atraz de mim. Reparei que Kaly retirara por debaixo da sua túnica massiva uma besta e que a carregava com uma flecha, mas o que estranhei mais foi que em vez de unhas tinhas garras grotescas feitas do próprio osso que saiam da sua carne, esta mulher tinha algo estranho, ainda não tinha entendido o que ela era realmente.
O tempo passou a correr, estava tão focado no que tinha de fazer que não tinha notado o quanto tínhamos andado sem sequer dizer uma palavra, para alem do incessante “Bring, bring, bring…”, até que a meio da caminhada a Kaly cortou o silencio.

- Um lobo que fala, interessante, nestes dias encontra-se tudo.
- Não propriamente um lobo. – Respondi.
- Não me vais dizer que és um lobo-troll…
- Não, não é isso. Apenas… acho que fui mais que um lobo
- Tipo, um esquilo?
- Ahmm? Porque raio seria um esquilo? – Interroguei eu algo perplexo
- Seria algo fora do normal, não achas?
- Sim, mas não… - Quedei-me em silencio ao ver algo estranho á minha frente, parecia que a floresta abria-se perante nós com mãos de raízes e ramos a afastar os arbustos e arvores do nosso caminho, engoli a seco e rodei a minha cabeça em direcção á Kaly. – Onde estamos?

Kaly segurava o mapa mas não conseguia olhar para ele, algo fazia-a olhar para a frente, muito provavelmente o mesmo que eu tinha visto.

- Es… estamos n… no fim do caminho…
- é o trilho magico Kaly! Encontramo-lo
- Bring, bring ,bring.
- Epah, mas este gajo não se cala com isto! – Resmungou Kaly mais uma vez.
- Já te disse para teres calma em relação a isso e para alem do mais estamos no caminho certo!

Olhei em frente e senti um cheiro doce, parecia que a montanha convidava-me a entrar pelos seus caminhos, a desbravar os seus mistérios e então corri como nunca antes o tinha feito a língua pendia-me da boca o meu pelo arrepiava-se com ansiedade. Ainda ouvi a Kaly a gritar para eu esperar mas não consegui estava embriagado pela emoção, corri e corri até que de repente algo rebentou debaixo das minhas patas e fui projectado para trás. Rebolei no chão e consegui ver uma silhueta.
Antes de me levantar reparei na Kaly e o rapaz a pararem ao meu lado ofegantes devido á corrida, eles olhavam para a frente em desafio, alguém nos desafiava e foi então que os meus olhos voltaram a ajustar-se.
Uma mulher loira estava perante nós, com o cabelo amarrado em dois totós num efeito estranho, longas pernas e uma mini-saia curta, tinha um bastão e uma fatiota á menina colegial e com um sorriso maquiavélico na cara. Entreolhamo-nos por uns instantes, mas assim que acabamos de recuperar o fôlego ela pronunciou-se com uma voz estridente e quase nociva á saúde pública.

- Vocês trespassam território sagrado criaturas malvadas, os caminhos do amor são para os puros, não para os negros de coração e as cornucópias da plenitude da paixão deviam ser bebidas por os sôfregos de sentimentos secos de virtudes…
- O que é que raio ela está a dizer? – Perguntou Kaly estática com o choque.
- Eu não sei, já me perdi.
- …Quando dos céus chover marmelada em forma de corações e os Deuses destruírem os maus, as vozes iram se erguer num pranto desesperado porque queriam manteiga de amendoim e pão-rico sem côdea em vez de broa de milho…
- Ela não se cala… - Comentei já um pouco assustado
- Bring, bring, bring…
- … pois os genes dos meus pais não eram assim tão puros, vou-vos fazer sofrer atrocidades com o meu poder de penas e em nome da Lua, vou castigar-vos!

Ao acabar de dizer isto fez uma coreografia estranha, acabando por ficar a apontar para nós. Um momento de silencio surgiu na montanha até que o rapaz do bring bring bring começou a gritar freneticamente, a sua pele ficou verde e triplicou em tamanho perante os nossos olhos espantados. A criatura em que agora o rapaz se tinha transformado, berrou cuspindo vários litros de saliva, investido de seguida contra a rapariga misteriosa que tinha aparecido perante nós, agarrou nela pelas extremidades e estico-a tanto até se desfazer em duas por cima da sua cabeça onde ele se pode deliciar com os seus órgãos e sangue. Tudo aconteceu tão rápido que nem tive tempo para suster o vomito, não comia nada á algum tempo, portanto foi algo pior do que eu imaginava, quando voltei a olhar só restavam os restos da nossa desafiadora, cada um para o seu lado e o rapaz entre eles dormia sossegadamente.
Abanei a cabeça para me livrar da vertigem que esta imagem tenebrosa me tinha causado, gritei para a Kaly me acompanhar e então ambos corremos pelo caminho magico. Uma gruta apareceu perante nós, perdi todos os medos e duvidas e corri cada vez mais rápido. Ao entrar na gruta, deparei-me com um pequeníssimo corredor de gelo, tentei travar mas fui com o focinho ao chão, deslizando até à pequena sala onde o corredor acabava. Levantei-me com dificuldade devido ao chão gelado debaixo de mim mas os meus músculos congelaram muito para alem que o frio da caverna era capaz quando finalmente dei atenção ao que estava perante mim.
Num enorme trono de gelo, uma mulher. Uma mulher com um delicado vestido de seda vermelho, com as pernas cruzadas numa posição sensual. Uma mulher com um sorriso diabólico que não mostrava um ínfimo de bondade. Uma mulher com um cabelo vermelho como o próprio sangue. Uma mulher que tinha sido apresentada para mim, como Xana…

Terça-feira, Junho 05, 2007

Saga Da Lua

Sementes de Melancolia

As dúvidas começavam a ser ainda mais fortes conforme o sol fazia o seu longo e demorado caminho pelo céu, não me deixavam vê-la, falavam-me que o seu sangue tinha despertado e que precisava de ser limpo. O Yorgsh mantinha-se num silêncio mortificante e numa tristeza imensa, enquanto que a sua esposa era movida por um ódio desconhecido e á muito adormecido, fazendo-a organizar toda a cerimónia que cada vez mais me parecia mais como uma execução pública.

“Para o bem da Unga e para que esta cerimonia corra bem, ela não pode ter contacto nenhum com o exterior durante 5 dias, tem de permanecer na tenta cerimonial e deixar o seu corpo sucumbir, enfraquecendo assim os agentes do mal que residem dentro dela”

Foi isto que Urnia me disse para me afastar, para me manter controlado, mas tudo parecia estar a correr mal, cada vez sentia mais que algo estava errado. Porque é que até á altura tudo estava bem e depois da morte dos dois rapazes esta vida que parecia simples caiu em desgraça? Que acusações foram aquelas que a Urnia lançou a Kandia e as que esta por sua parte lançou á sua sobrinha? Não fazia sentido nenhum, não conseguia entender o que se passava e já que ninguém me dava as respostas, decidi eu ir procurá-las. Esperei até o sol se pôr, diverti-me a contar quantos pelos tinha no corpo e correr atrás de galinhas e outros animais inferiores como um simples cão, mas quando o momento chegou, esgueirei-me pela atenta vigia dos dois guardas que estavam a emitir sons ameaçadores de roncos e consegui entrar na tal tenda. Podia dizer que não esperava o que vi, mas tal coisa nunca passaria pela cabeça de ninguém, dentro daquela pequena casa de palha, apenas se encontrava lá uma escadaria feita em pedra que abria passagem para o interior da terra. Desci esses degraus e senti o ar húmido e abafado da terra, avancei pela gruta que parecia ter sido escavada á muitos anos atrás, os corredores estavam repletos de estranhas figuras monstruosas esculpidas na própria terra, flamingos, ursos, um esquilo ou outro e umas coisas que pareciam o cruzamento entre uma codorniz, uma tartaruga e uma barra energética. Essas figuras iluminadas por várias tochas emitiam sombras aterradoras que envolviam a gruta – sim, sombras ainda mais aterradoras que as próprias estatuas – fazendo-me arrepiar o pelo. Estalactites desciam do tecto ameaçando cair a qualquer altura no chão daquela caverna e conforme eu ia avançando, o ar ficava mais abafado e difícil de respirar e um suave calor emanava do chão. Eu estava a deixar-me embalar por todos esses sentidos até que cheguei ao meu destino, no centro de uma enorme sala estava uma pedra, acorrentada a essa pedra estava a Unga, coberta com alcatrão que lhe desenhava estranhos padrões na pele, a pele em volta dessas marcas estava queimada e os seus olhos estavam vermelhos, cheios de dor e tristeza jorravam lágrimas que escorriam como um rio, constantes e imparáveis. Eu aproximei-me com as patas trémulas de emoção, pisando num chão banhado com pétalas de flores, que pareciam querer dar um ambiente festivo ao espectáculo grotesco que era este ritual. Cheguei perto da Unga, senti o cheiro intoxicante do alcatrão misturado com o aroma perfumado das flores e o odor da carne queimada, parecia que queria entrar em pânico mas uma força superior controlava-me a manter a serenidade superficial e tive de esforçar-me ainda mais quando ela olhou para mim, com os olhos pesados e avermelhados de tanto chorar.

- Skor, desculpa…
- Estás a pedir desculpa de quê? A única pessoa que devia pedir desculpa era a tua mãe por te ter condenado a isto. – Enquanto falava desloquei-me para perto das correntes que prendiam os seus braços e tentei arrancá-las com os meus dentes.
- não te esforces Skor, essas corrente são abençoadas, por mais que tentes não as conseguirás partir. – Elas provavam-se difíceis de arrancar, que eu nem queria pensar em quebrar. E assim desisti.
- Mas Unga, isto é tortura, o que estás a sofrer não se justifica!
- Justifica-se sim lobinho. – Apesar da dor que ela passava a sua voz suou doce como sempre. – O meu sangue não é puro, devo sofrer estas provas… porque se não…
- Tu não acreditas no que estás a dizer! Passar por isto? Para? Para quê?

Ela começou a chorar mais fortemente e eu reparei que tinha tocado numa ferida.

- Não! Não acredito! – Gritou ela – Isto é bárbaro e eu amo a minha família, nunca lhes faria nada de mal! Mas no entanto eles insistem nisto. Como os posso perdoar?

Os seus gritos não são ouvidos somente por mim, pois os guardas roncantes, mais Urnia apareciam por trás de mim e agarravam-me enquanto a matriarca gritava:

- Como te atrevestes a profanar este santuário, criatura desprezível! – Pelo que parece ela tinha mudado muito desde a primeira vez que a tinha visto. – Irás ser exilado desta aldeia, nunca mais quero ver esse focinho nojento á minha frente.
- Skor! Não lhe façam isso! Não me deixes! – Gritou a Unga com um desespero e dor na voz que até a mim me feriu só de ouvir, mas no entanto a sua mãe estava insensível e completamente abstraida da dor da filha.

Fui arrastado, puxado pelo pêlo por entre as paredes horripilantes da gruta, pelas ruas empoeiradas da aldeia como um troféu de caça ou de guerra, fechei os olhos e abstrai-me da realidade, por esses momentos em que o meu corpo batia em pedras, o meu pêlo era arrancado e a minha pele rasgada, fechei os olhos á multidão que olhava em choque, ás mentiras que eram cuspidas da boca da Undria, da dor, mas não de uma coisa, de que maneira fosse, eu iria soltar a Unga.
Senti o meu corpo a ser elevado e depois projectado, abri os olhos no momento errado, pois a única coisa que pude ver foi terra antes de embater contra ela, rebolei pelo chão e quando parei consegui levantar-me, sentia-me dorido mas isso não chegou.

- Vai! E nunca mais voltes rafeiro!

Engraçado que quem desta vez falava não era Undria mas sim Torg, parece que ele não tinha perdido tempo em deixar o que fazia para me ver cair em desgraça com um sorriso de vitória na cara.

Derrotado e humilhado, levanto-me e começo a afastar-me da aldeia acompanhando, se bem que a uma certa distancia, por Yorgsh, silencioso como nunca o tinha visto antes após estes acontecimentos. Algo enervado pela sua perseguição e também um pouco por nada ter feito para me defender viro-me para trás e confronto-o.

- Porque me segues? Pensei que vocês tinham deixado bem claro que não me queriam na vossa aldeia.
- Nos? – Diz o Yorgsh pausadamente, agora é que eu reparava que ele estava debilitado e os anos pesavam bastante nos seus ombros. – Devo-te relembrar caro lobo, que também a Unga é uma de nós e no entanto vistes como ela está a ser tratada.
- Não aprovas, estou a ver.
- Não! É claro que não aprovo, é a minha filha e se o Broko não recuperar, será a minha única descendente.
- Então porque permitiste isto? Porque deixaste que ela fosse torturada daquela maneira?
- Silencio – Interrompe-me ele com um tom de voz ferido. – Se procuras respostas vai ter com a minha irmã.
- Mas ela foi banida da aldeia pela tua… - de repente notei que este era o objectivo de Yorgsh aqui - espera lá o que me estás a querer dizer?
- Há uma presença maligna sobre nós e temo que ela se tenha apoderado da minha amada, mas como disse a minha irmã poderá dizer-te mais sobre isto.
- Mas… para… tu sabes para onde ela foi?
- Ela sempre foi uma bruxa e sempre será uma bruxa, terra é onde andamos, ar é o que respiramos, fogo ela sabe fazer muito bem… agora água… segue o cheiro a água Skor e encontrarás o que procuras… – Ao dizer isto ele começa a afastar-se enquanto eu continuo a fixa-lo, nem sabendo com que intuito, ou o que fazer. E ele acaba por terminar a sua frase – E com sorte, talvez salves a minha filha.

Estas palavras não me ajudaram nada, “segue o cheiro da água, onde é que isso me irá ajudar?” pensei, eu nem sequer sabia que a água tinha cheiro. Porque é que estas personagens típicas de histórias épicas só sabem falar em charadas.

Mas não tinha outra escolha, comecei a farejar o ar em busca do cheiro a água e de tão concentrado que estava nessa busca acabei por entrar na floresta de onde apareci, andei ás voltas pela densa folhagem, que talvez não fosse tão má se eu apenas me pudesse levantar e caminhar como um troll. Mas talvez por sorte ou mesmo por destino acabo por voltar ao mesmo lago onde me vi pela primeira vez, privado de memórias e um lobo que fala… também o mesmo sitio onde encontrei a Unga… os pensamentos podiam me perturbar a mente mas mantinha-se o facto que agora se encontrava uma casa perto do lago, feita em madeira, mas não construída, parecia que a própria natureza tinha se dobrado para formar aquela casa era tosca, mas robusta, parecia ser feita apenas das raízes das grandes arvores daquela floresta, tinha uma pequena chaminé que fumegava e uma luz saia das janelas. Como se isso não chegasse para comprovar que estava lá alguém, gritos, injúrias e outro tipo de lamentações ecoavam de lá de dentro.

Eu corri para a casa, com medo do que pudesse acontecer á minha fonte de informação, mas quando cheguei deparei-me com uma discussão algo… estranha. A Kandia estava a discutir com uma mulher algo bizarra, era bem mais baixa que a Kandia, estava vestida em túnicas negras, tinha a pele cinzenta, os seus dedos pareciam transformados em garras, tinha o cabelo negro com um tom pouco natural de azul, os seus olhos brilhavam numa cor amarela brilhante, como se fosse um fogo que queria escapar do interior do seu crânio. Ao eu entrar ela olha para mim e o seu rosto ganha uma expressão algo aflita e então continua a sua discussão.

- Estás a ver? Até a porcaria da fauna está a sentir este cheiro, não foi isto que eu te tinha pedido.
- Minha querida amiga, eu só te ajudei a concretizar o teu ultimo desejo e alegra-te, és tu mesma que o vais realizar, não nenhum terceiro. E para alem do mais, o Skor é inofensivo.
- Ah, então ainda por cima é teu animal de estimação. – Com esse comentário, a Kandia solta uma valente gargalhada.
- Eu não sou animal de estimação de ninguém – Replico, deixando a estranha mulher a olhar algo chocada para mim. – Quanto menos inofensivo.
- Ele fala. – Diz a mulher olhando em alternância para mim e para a Kandia. – O lobo fala.
- Claro que fala, tu também falas não é? – Responde-lhe a Kandia.
- Sim, mas…
- Chega de mas e meios mas, Kandia, o Yo… - interrompo
- Sim, eu sei Skor, o Yorgsh mandou-te vir ter comigo pois julga que eu tenho informações que te possam ajudar a salvar a sua filha, ora bem, entra e eu vou-te dizer tudo o que sei. Tu senta-te Kaly.

Aparentemente Kaly era o nome da mulher que se encontrava com a troll. Fiz como ela disse entrei e sentei-me perto da lareira da casa, a humidade da floresta colava-se ao pelo e eu sentia-me algo fresco demais com isto, a Kaly sentou-se num pequeno banco, quase afundando a sua cara entre as pernas puxou o cabelo para trás e respirou fundo, enquanto isto a Kandia pegou num cachimbo, enche-o de ervas e acendeu-o, sentou-se em cima da sua mesa e puxou o fumo do seu cachimbo esperando um largo espaço de tempo antes de o expirar. Parece que se sentia pronta para falar.

Terça-feira, Março 20, 2007

Saga da Lua

Sementes de Melancolia

Pouco tempo tinha passado depois da batalha, por volta de 3 horas não mais e os preparativos para o funeral do falecido filho de Yorgsh já estavam bastante avançados, a família estava toda de luto e moral em baixo e entre o momento em que acordei e o funeral permaneci no quarto de Unga entre os braços dela, sentindo as suas lágrimas a ensopar-me o pelo. Na altura do ritual, a Unga recusou-se a comparecer quando a mãe a chamou, mas no fim consegui convence-la a ir por respeito ao irmão.
A tribo toda tinha se reunida em respeito ao falecido futuro líder, suas roupas e bens pessoais jaziam em torno dele, em cima de uma pira. Estava marcado com runas pintadas com sangue de animais e estava coberto de adornos de folhas e flores em seus pulsos, parecia tão em paz que fazia esquecer que estava morto, apenas parecia descansar para uma nova jornada.

No entanto fora da minha percepção, conhecimento e até memoria, em terras mais distantes do que alguma vez se tinha imaginado que o mundo pudesse albergar, abaixo desta terra guerras intermináveis e abaixo do território Imperialium, num reino esquecido do resto do mundo os problemas começavam a levantar-se.

- Princesa, os piratas voltaram a atacar a fronteira, os reinados do sul aliaram-se contra nós, temos de reagir! – Falava um homem de porte elegante mas com roupas empoeiradas e tão negras como o seu cabelo, tendo ás suas costas uma viola.
- Eu sei Pinguças...

A princesa esfregava a testa enquanto passava a mão por uma espada de um guerreiro perdido, até que ergueu a cabeça com falsa esperança ao ouvir a porta de entrada para a sala de trono. Quem surgiu dela foi Flahur, um homem alto, com um aspecto feroz, tão sábio quanto forte, era cego de um olho, tinha longos cabelos cinzentos e vestia uma couraça de um azul tão negro quanto um céu tempestuoso acompanhado por duas raparigas gémeas com grandes asas negras. Apesar de contente com o reaparecimento deste velho amigo e tutor, a princesa não se sentia aliviada

- Já não era sem tempo, já estava farto de substituir por ti. – Afirma Pinguças. O velho sábio não responde e continua a avançar, ajoelhando-se á frente da princesa sentada no trono.
- Princesa, eu servi a si e ao seu pai durante décadas da minha vida mas...
- Flahur, o que vais dizer? Eu só estava a brincar com aquilo. – Diz Pinguças temendo as próximas palavras.
- … Não tenho nada contra ti amigo, mas, os meus ossos já estão doridos e já não consigo atender ao chamamento de batalha, desejaria retirar-me…
- estás a brincar rapaz! Nós precisamos de ti mais agora que nunca…
- Silencio! – Interrompe a princesa. – Flahur, velho mestre, companheiro, conselheiro e amigo, mais que ninguém neste reino sacrificou tanto, fostes sempre e completamente devoto ao meu pai e consequentemente a mim. Se esse é o teu desejo, estás livre.

Flahur desembainhou a sua espada e presenteou o cabo á princesa enquanto que ao mesmo tempo as duas raparigas começavam a remover a armadura do guerreiro ao mesmo tempo que o bardo observava, mortificado a desistência de um dos seus mais fiéis amigos.

- Este reino já me deu tanto, que torna este gesto insignificante, mas entrego á minha pátria a minha força e resistência.
- Não. – Nega a princesa empurrando ligeiramente o cabo de volta para o seu dono. – se há uma coisa que o meu pai me ensinou, é que nunca se deve roubar a dignidade a uma pessoa eu sei, que ele nunca seguiu isso á letra, mas a ti ele nunca te roubaria a dignidade fizesses o que fizesses, leva a arma, leva a armadura, leva qual tesouro quiseres e serás sempre bem vindo a este castelo. Que o tempo te guie a caminhos seguros.

Com essas palavras, as duas raparigas repõem a armadura ao seu senhor e seguem-no na sua saída carregando com ele um sorriso triste nos lábios. Assim que o guerreiro saiu do salão, a princesa contorceu-se no trono contendo as lágrimas de um sentimento de abandono.

- Uma musica, Sothys?

Ela nada disse, apenas abanou a cabeça. E assim as notas e palavras de uma musica de gloria antiga e esperança futura ecoaram pela sala de trono ecoaram pela sala de trono e escaparam por uma janela envolvidas no vento que transportou-as para alem do horizonte. Notas que perderam a melodia por entre sopas de ursos de gomas e palavras que perderam o sentido por entre aves a engatarem miúdas demasiado novas para entrarem na televisão até chegarem como uma melodia triste e melancólica ao triste norte.
Triste neste dia após o funeral, o jovem Grizaldo tinha-se perdido num mar de fumo e de chamas e as suas cinzas guardadas numa cripta, assim a sua espada e um colar que a sua irmã lhe tinha feito. A família de Unga tinha voltado para a sua casa, tristes e desolados, ainda por cima quando o seu outro filho de nome incerto estava sem mostrar sinais de consciência. Mas para alem do que eu pudesse esperar, algo para alem de tristeza despoletava naquela casa, uma raiva antiga e esquecida que se reacendia como um braseiro espicaçado fazendo as acusações surgir

- A culpa é toda tua Kandia! – Acusou a mãe de Unga
- Minha? Onde é que a culpa disto é minha? Eu tentei prevenir isto.
- E de muito serviu, viu-se não se viu? Um dos meus filhos está morto e outro, sabe-se lá se os deuses vão poupa-lo!
- Mas pelo menos não fiquei parada com medo do destino como tu cunhada!
- Como te atreves. – Nesse momento Urnia deu uma chapada na cara da sua cunhada, fazendo-a quase perder o balanço e pondo-a a rosnar que nem um animal selvagem por entre os seus dentes fechados e caninos aguçados. Foi nesse momento que eu reparei que Kandia não era como os outros Trolls e a Urnia ajudou-me a perceber isso com as seguintes palavras. – Sai da minha casa bruxa! Sai! E nunca mais voltes a pôr cá os pés.
- Bruxa? Ah! Se eu sou bruxa a tua filha não é menos que eu. – O tom saiu tão frio e cruel que até a mim me fez gelar e quando olhei para o meu lado só consegui ver o cabelo vermelho da Unga a desaparecer para dentro do seu quarto.
- Já chega. – Gritou Yorgsh. – Kandia, eu não te culpo por nada, mas para o melhor de todos, sai desta casa.

Não fiquei para ouvir as próximas palavras, pois esgueirei-me para dentro do quarto de Unga. Encontrei-a na cama com um cigarro apagado, uma parede pintada e um lençol dobrado, um caranguejo guerreiro com um sabre cromado, qualquer descrição manhosa e o resto é sina!

… continuando...

A Unga estava na cama chorando compulsivamente e eu fui obrigado a esquecer qualquer questão ou qualquer sentimento de culpa gerado nestes últimos momentos, subi para cima da cama e encostei-me a ela, que hesitou um pouco antes de me abraças e puxar-me gentilmente para baixo conforme se deitara.

- Desculpa lobinho, desculpa isto tudo…
- Não tens de me pedir desculpas por nada, fizestes-me mais bem do que eu alguma vez podia esperar. – Murmurei.

Ainda jorrando algumas lágrimas ela acabou por adormecer abraçada a mim e eu também não tardei em adormecer, embalado pela imagem doce daquela amiga azul descansando num mundo menos cruel fez-me deslizar rapidamente com ela. Mas o sono não foi descanso, pois segundos após fechar os olhos voltei a abri-los e vislumbrei uma figura que me fez estremecer, pois quem estava sentada na cama era uma das raparigas da minha, que eu até agora pensava ser, alucinação. Tinha sido a segunda a aparecer e aquela que me tinha abraçado agora podia vê-la bem, sua pele era branca e pura como a superfície lunar, seus longos cabelos negros desciam-lhe pela cara em tranças como suaves sedas pela suas belas e jovens feições e quando ela viu a minha surpresa começou a falar com uma voz tão fresca quanto bonita.

- Não tenhas medo, eu sei que isto deve estar a ser bastante confuso para ti mas acredita que estou aqui para te ajudar.
- E… e quem és tu? – Perguntei nervoso.
- Oh, tão mal educada que eu estou a ser, o meu nome é Créstia.
- Eu só posso estar a sonhar – Reclamei.
- E estás, portanto ouve-me que o meu tempo é curto. – Explica ela deixando-me algo mais chocado. - Tens pouco tempo, mas se subires á Montanha da Lua terás as explicações que precisas, talvez até consiga ajudar com a tua memória.
- Um sonho? Não entendo, explica-me agora!
- Agora não posso e despacha-te! Não temos muito tempo, a minha irmã está quase a chegar.
- A tua irmã?
- Sim, somos quatro irmãs, a pequena é a Nova, a que tu já conhecestes chama-se Ming Te, ela é a mais velha e depois… - ela silenciou-se como se temesse mencionar o próximo nome.
- E depois? Quem é? É a de cabelo vermelho? – ela baixou os seus olhos e continuou com o mesmo pesar.
- Essa é a Xana, tem cuidado com ela, eu não sei o que ela está a tramar ma….


- Skor!!

Acordo com um susto enorme ao ouvir a Unga a gritar por mim e quando acordo reparo num troll, cheio de runas desenhadas na sua pele e nas vestes estranhas que usava, a arrastar a Unga pela porta enquanto os seus pais olhavam para o espectáculo impávidos e serenos. Eu salto para o chão e rosno:

- O que é que estão a fazer-lhe!
- É para o bem dela Skor. – Responde-me a Urnia – é um ritual usado á gerações pela nossa tribo para limpar o sangue impuro.

Apesar da sua mãe me assegurar o grito de desespero e assustado da troll a quem eu devo a vida ecoava na minha cabeça, algo tinha de ser feito.

- Skor não os deixes fazer isto!

Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

A Saga da Lua

(Humor? só a partir deste para baixo : As aventuras da gazela Anuket em Marte!)

Um lobo chamado Skor e uma troll chamada Unga

Mais tarde vim a descobrir que fiz o contrario, a Unga deliciava-se com a historia que os irmãos lhe contaram, de como a discução começou, da luta e da derrota de Torg, e para minha satisfação e alivio, a Unga, assim como toda a familia riam-se desmesoradamente com a escepção de Yorgsh, talvez não estivesse a acreditar na parte em que Torg insultou a Unga e eu defendia a honra dela, ou a parte em que eu peguei numa cadeira e parti-a nas costas de Torg, ou quem sabe não acrerditasse que o chefe da aledeia veio congratularme por aquele enorme favor á sua patria, talvez porque Yorgsh fosse ele proprio o chefe da aldeia mas parece que todos esses pensamentos foram em vão, pois o velho levantou-se e disse-me:

Yorgsh: Skor, mais uma vez fizestes um grande feito pela minha familia e povo, eu sei que me estou a repitir, mas tenho de te dizer, mas neste pouco tempo que entrastes na vida da minha filha, só tenho tido boas impreções tuas, eu podia desejar ter um filho como tu, mas os meus dois filhos já me dão muita satisfação, mas por outro lado aquele falhanço de futuro genro não me dá qualquer gosto...

E enquanto Yorgsh divagava eu podia ver as duas cunhadas a entre olharem-se com ar de que planeavam uma coisa, nem quis começar a pensar no que seria. Nisto a Unga sentou-se ao meu lado e agarrou-se ao meu pescoso, senti um ligeiro sufoco, mas não propriamente causado por ela a agarrar-me mas por algo que não precebi, se calhar estava a ficar com pulgas, ou se calhar foi das gomas que andei a comer, mas o tempo passava e o Yorgsh não parava de divagar e então para quebrar o ambiente de tedio que as teorias de Yorgsh causavam, a mãe de Unga foi gentil o suficiente para me perguntar por certas coisas:

Urnia: então Skor, fala-nos de ti, não é todos os dias que temos um convidado na nossa mesa, muito menos um lobo que fala.
Skor: eu gostava muito de dizer quem sou, mas...
Brov: és um espião ultra secreto e estás numa missão super mega secreta?
Unga: shhh, deixa-o contar Brov
Skor: eu por acaso gostava de confirmar isso rapaz, mas eu na realidade estou muito confuso, eu só sei que era humano.

O abraço de Unga torna-se mais apertado por uma razão desconhecida, talvez fosse o meu pelo a causar-lhe comixão ou porque estava com sono, mas isso tambem não interessava muito agora, a menos que o seu aperto me fizesse saltar o cerebro da cabeça.

Skor: não sei o que aconteceu, mas tambem não me lembro da minha identidade, as vezes sinto que fui alguem poderoso, que tinha um mundo a meus pés, mas outras vezes, outras vezes sinto que vivia algo mais pacato, uma casa simples na floresta com uma mulher.

Palavras que me causaram uma certa tristeza recordando os tempos passados que escorriam vagamente na minha mente, trocados e emaranhados como duas vidas vividas em tempos destintos, tal discurso e tal desmotivação do meu ser fez com que a Unga encostasse a sua cabeça á minha, com este acto as cunhadas entreolham-se outra vez. Agora eu achei mesmo que algo estranho se passava, mas mesmo assim, decidi não ligar coisas mais estranhas se passaram.

O tempo passou-se e com ele varias gaivotas voaram norte presseguidas por enormes gruas amarelas, castores começaram a fazer os seus rituais satanicos, o que foi um berbicacho para a tribo de trolls a que eu me tinha juntado, ajudei na caçada a esses vies servos da Demonstração, que foi algo que correu ás mil maravilhas, a tribo tinha peles novas para os artezãos fabricarem novas roupas e eu tinha ganho um gosto pelas caçadas realizadas por estas criaturas que agora chamava de minha familia. Mas esta paz não durou para sempre. Meses depois, tambores foram ouvidos á distancia o soar de melodias de batalha despertou os mais jovens que desejavam provar-se em batalha e receber mais gomas, mas o que me mais custou ver foi as mulheres que choravam pelos seus irmãos, maridos e filhos que se queriam lançar loucamente ao encontro da morte. Mas foi então que a ideia me surgiu, um flache da memoria de uma victoria antiga, perdida na minha mente, corri para avisar o lider do grupo que se preparava para defender a aldeia, que neste caso era Grizaldo, mas antes de ir falar com ele ainda tive tempo de mandar uma moeda ao poço, pedir um desejo e ir comer qualquer coisa. Ao fim de estar bem alimentado finalmente dirigi-me assim como a minha palavra ao irmão de Unga.

Skor: Grizaldo isto são tambores de ursos!
Grizaldo: diz-me algo que eu não saiba.
Skor: antes da batalha, estes tambores, eles têm um espaço de tempo em que fazem danças tradicionais e não as interrompem por nada.
Grizaldo: eu não acredito! quer dizer que…
Skor: sim!
Grizaldo: ainda podemos ir comer a feijoada!
Skor: podias ter poupado a piada previsível.
Grizaldo: sou novo nisto, o que queres? Bem, vamos então aproveitar da situação e matar ursos?
Skor: ora ai está algo que eu não ouvia á muito tempo. Com gosto! Lidera o caminho.

E assim percorremos as planícies brancas deste eterno Inverno até que ao subirmos uma colina, deparamo-nos com um enorme exército de ursos, o Grizaldo até ficara assombrado de medo com a imensidão de tamanho exército, mas desta vez quem não estavam prontos eram eles. Com um tremendo grito o irmão de Unga comandou o seu pequeno grupo a atacar o exército acampado e como perdido por uma fúria e sede de sangue mais antigas que o próprio mundo, eu lancei-me na companhia dos Trolls sob o exército incrédulo dos ursos. A batalha começou e sem dificuldades o pequeno grupo organizado de Trolls subjugou os ursos que tentavam combinar a sua dança frenética com as artes de combate só conhecidas por eles. Por entre as hordas infindáveis de dançarinos lá estava um ou outro a fazer gazeta, que eram rapidamente subjugados pois os guerreiros podiam dar-se ao luxo de desviar a atenção dos dançarinos para atacar os gazeteiros. Mas tanta facilidade era de estranhar e os meus receios não foram ao acaso, pois quando a vitoria parecia assegurada, um urso bem pequeno, mas com uma mão enorme aparece pelo meio dos restantes ursídeos e ataca o Grizaldo com uma fúria e um poder incrível, abanando a sua mão de um lado para o outro. Três outros Trolls tentam defender o seu líder mas acabam por sucumbir aos furiosos ataques do urso pequeno. Quando eu tento reagir sinto as minha patas presas, batalha continua mas quanto mais eu tento avançar, mais dor sinto até que, cansada da minha recusa, a minha captora revela-se, ou pelo menos a sua voz.

Captora: Esta não é a tua batalha! Nunca foi!
Skor: e quem és tu para decidir isso? O que eu faço é de minha escolha apenas.
Captora: silencio criança! Não tens nada a decidir aqui o destino deles está traçado.
Skor: O destino é aquilo que fazemos dele sua cobarde. Mostra-te e luta!
Captora: Não admito que deites tudo a perder por um erro de julgamento, insolente.

A minha atenção é desviada desta estranha conversa pelo que decorria no campo de batalha. Brov que nem devia estar aqui tinha se posto entre o pequeno urso e o seu irmão, o que seguiu da batalha ficou fora da minha percepção pois a força que me agarrava, forçou-me para o chão e fez-me desmaiar…

Voz: Midd… Midd acorda
Outra voz: …Pai… o que é que estás a fazer?
Ainda Outra voz: quer poupar em chamadas de longa distância?

Os meus olhos abrem-se lentamente para observar duas figuras femininas no meio de uma imensa escuridão, ambas estavam vestidas com enormes capas e capuzes que impossibilitavam de ver como eram mas as suas vozes eram tão familiares que me faziam estremecer o… pelo?
Levantei-me e observei que eu era do mesmo tamanho. Já não era um lobo mas sim um humano e as roupas que me cobriam, essas sim eram feitas de pelo de um lobo negro.

Voz: onde é que estás Midd? Eu procuro-te mas não te consigo encontrar…
Outra voz: Pai… nós precisamos de ti, iremos desaparecer no esquecimento sem ti…

Eu gritei para elas, mas nenhum som saiu da minha boca, tanta coisa que queria explicada e que desejava que elas me explicassem mas algo não estava certo. Tentei falar outra vez, mas era como se a minha voz se tivesse apagado do mundo. E as duas raparigas repetiam as mesmas frases, vezes e vezes sem conta enquanto o desespero começava a invadir-me. Naquela câmara escura, para alem do passado desconhecido que me atormentava, as mesmas correntes invisíveis me aprisionavam. A fúria e o desespero consumiam-me cada vez mais enquanto que o humano escondia-se e o lobo começava a vir ao de cima. Mas por fim, algo acontece que faz toda a minha fúria desvanecer.


Uma rapariga que não teria mais de oito anos corre em direcção a mim agarrando num pequeno lobo de peluche, chegando perto de mim, desaparece como se não passasse de uma miragem. Não me deixando recuperar do choque, outra rapariga corre em minha direcção, esta era muito parecida á primeira menina, mas esta não era nenhuma menina, mas uma jovem na flor da idade, ela abraça-se a mim e desaparece como a primeira, deixando-me como um estranho e frio terror. Segundos depois uma terceira aparece, esta não corria como as duas primeiras, mas o gelo dos seus olhos azuis e o fogo do seu cabelo curto marcaram-se em mim. Esta não hesita nem um instante e ao chegar perto de mim dá-me uma violenta chapada desvanecendo logo de seguida por entre um riso maligno e ensurdecedor. E para finalizar, uma anciã aproxima-se de mim, com longos cabelos tornados brancos pela idade, mantos também brancos e com um olhar que mostrava uma infinita sabedoria. Ela caminha lentamente até perto de mim e ao contrário do que eu esperava ela não desaparece mas dirige-se para mim com uma voz estranhamente pouco desgastada pela idade.

Anciã: peço desculpa pela atitude das minhas irmãs, elas são novas e inconscientes. Eu sei que não podes falar, culpa a ruiva, ela ganhou um terrível gosto em brincar contigo, enquanto que as pequenas simplesmente não sabem o que fazer contigo mas está descansado, não vais ficar á mercê delas por muito mais tempo.

Ainda outra voz: telefone já e poupe connosco que não iremos revelar o nome mas somos bons em fazer pessoas poupar

E com essas palavras sou solto da prisão invisível e caio no chão com um sufoco enorme quando volto a olhar para cima a anciã tinha desaparecido e por entre as sombras que me sufocavam consegui ver um rosto azul que me envolvia de calma. E a sua voz trémula dizia-me com algum alívio.

Unga: pensava que te tinha perdido também…
Skor: também…?

Afastada dali mas também com algum pesar na voz a sua tia anuncia:

Kandia: O Grizaldo foi morto na batalha, o Broy foi gravemente ferido…

Fim...

Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

A Saga da Lua

Um lobo chamado Skor e uma troll chamada Unga

A minha primeira reacção foi correr em direcção a aldeia e perguntar o que tinha acontecido mas as minhas forças são rapidamente sugadas pois quando eu tento correr com a minha cauda agarrada pela azulinha. Cai por terra e ela agarrau-me pelo pescoço, puxando-me para perto dela.

Unga: não é boa ideia, pequeno, os inimigos ainda podem estar por perto.
Skor: chamastes-me o quê?
Unga: eles vêm do sul, já destruíram duas aldeias da minha raça e quem sabe quantas outras de homens. Eu tenho medo pequeno.
Skor: eu não sou pequeno, porra!
Unga: dizem que são homens urso. Eu não sei onde acaba a historia e começa as fabricações do medo, dizem que são metade homens metade ursos, que destroem tudo o que aparece pela frente e quanto atingem um grande prazer em batalha eles transformam-se completamente em ursos e que comem sem lavar as mãos.
Skor: isso não parece assim tão mau…
Unga: não?
Skor: não, ursos não são assim tão perigosos, são chatos sim, mas uma ou duas mocadas e…

A minha conversa é interrompida por um grande rugido por detrás de nós, olho para trás enquanto a Unga arrasta-se, assustada, pelo chão para trás de mim. Um homem alto e forte vestido em pele de urso e com garras do mesmo animal a fazer de arma avança sobre nós.

Homem-Urso: yo dama! Chilloutes isto aqui estás entre sócios.
Skor: ela não quer nada contigo, afasta-te.
Homem-Urso: ei, sócio, vê lá se não queres que te leve lá fora.
Skor: não sei se me ouvistes verme! Vai-te embora antes que eu te faça arrepender de ter saltado da árvore que te gerou.

O Homem-urso fica possesso de fúria e avança sobre mim rápida e monstruosamente sedento de sangue, eu tento pensar rápido, mas muito mais rápido que eu – como também extremamente misterioso – são os desígnios da natureza e antes que o aspirante de urso me pudesse atacar ou eu ataca-lo, uma arvore cai sem explicação alguma em cima do homem-urso esmagando-o.

Skor: Azulinha, estás bem?
Unga: estou, apenas estou assu… azulinha?
Skor: ah… uh… er…
Unga: não precisas de ficar assim Skor, achei piada.

Ela sorria para mim e eu, se eu tivesse lábios, aposto que também estaria a sorrir. Achava estranho, uma, uma fosse o que ela fosse, acarinhar-me tanto como se fosse um familiar, ou um amigo. Mais estranho, é que ela parecia conhecer-me apesar de não saber quem eu era e admito, era difícil não sentir também carinho por ela assim como era difícil não sentir uma leve comichão na orelha que me obrigou a usar a minha pata para me coçar.

Mas a nossa situação não passou despercebida, vários aldeões aproximaram-se de nós ajudando a Unga a levantar-se e ficando estáticos a olhar para mim não sei o que fiz, mas algo teve de ser para levantar a admiração e o medo que via nos seus olhos, a situação estava a tornar-se embaraçosa e outra vez vi-me forçado a recorrer á velocidade de pensamento para escapar desta situação, mas repetindo-se algo acontece cortando-me o pensamento e fazendo mover a historia. Um ser bastante alto mas encurvado, sustentando-se num cajado e com as formações ósseas bastante maiores fazendo lembrar hastes, irrompe pela multidão e lança-se aos meus pés, a Unga corre rapidamente ao seu encontro e agarra-lhe no braço, apesar de me parecer alta não se comparava á criatura que se encontrava prostrada diante mim.

Velho: salvastes a minha filha! Como é que alguma vez te poderei pagar.
Skor: eu… eu não quero nada.
Velho: tolices! Tenho uma divida para contigo que ultrapassa qualquer riqueza que possas pedir, portanto pede qualquer coisa! Até a minha vida te darei.
Unga: …guarida…

O silêncio devastador transforma-se num burburinho incomodativo, não conseguia perceber o que se passava, porque é que esta gente estava tão perturbada com a minha presença e porque é que o pedido da Unga causou tantos comentários por parte do povo, para alem do mais, como é que este velho se apercebeu que eu conseguia falar e o que raio ela queria dizer com pequeno?

Velho: … filha?
Unga: ele está sozinho, defendeu-me e nós sabemos o quanto ele é importante para nós, portanto pai, eu peço-te… já agora, o que é o jantar?
Velho: moelas.
Unga: gostas de moelas pequeno?
Skor: gosto sim!
Velho: então está decidido.

Afirmou o velho levantando-se com um fulgor que não assentava nada com a sua idade.

Velho: Este nobre lobo irá permanecer em minha casa e será tratado como membro da minha família pois está sobre minha guarida. E se alguém o tratar mal, é como se estivesse a tratar mal a minha família, pois eu decidi guardar este rapaz. Portanto não o tratem mal, pois ele é da minha família e…
Unga: pai, estás a divagar

Um maior clamor ergue-se da população, não conseguia perceber se os murmúrios eram bons ou maus mas pelo meio lá se ouvia um daqueles seres a gritar: “vamos morrer!!!” e em seguida a entrar em combustão instantânea e correr pela aldeia pondo mais algumas casas a arder antes de cair por terra. Com esses novos fogos os aldeões lançam-se outra vez aos trabalhos que faziam após o ataque, enquanto que eu, era levado por esta nova família para o que iria ser a minha casa.

A casa era maior que as restantes, o que parecia indicar que também a posição social desta família seria superior aos outros. E apesar de tudo a casa era muito simples, tinha um grande salão na entrada, com vários bancos compridos em volta de uma fogueira com um grande caldeirão por cima, e em volta deste salão estavam bastantes portas que eu assumi que levassem para os diferentes quartos. Mas agora estava na altura de conhecer a família.

Foram-me apresentando algo lentamente os membros daquela família, o velho que me tinha oferecido guarida era o senhor da aldeia de nome Yorgsh, duas mulheres vieram receber-me, uma delas chamava-se Kandia, era esbelta, de cabelo cinzento, um pouco mais alta que Yorgsh, as formações ósseas no seu corpo eram leves e comparadas a outras que tinha visto, quase imperceptíveis, era a tia de Unga que habitava com o seu irmão porque nunca tinha procurado alguém que a desposa-se, a outra senhora era a mãe de Unga, era uma mulher forte, com o cabelo igual á sua filha, mas repleto de tranças, o seu nome era Urnia.

Mais tarde cheguei a conhecer dois irmãos de Unga, um chamava-se Bron mais novo e tinha uma figura nada parecida com o seu pai ou sua mãe, fazia mais lembrar a tia apesar do cabelo ruivo mostrar de quem era filho, o ultimo rapaz, era tão alto quanto o pai e era uma parede de músculos e de osso, segundo me contavam seria ele o próximo líder da tribo e chefe das tropas da aldeia e tinha pelo nome de Grizaldo.

Bron: mas eu posso ficar com ele?
Yorgsh: não! Já te disse que ele é da tua irmã.
Unga: pára de o tratar como um animal de estimação.
Yorgsh: desculpa filha eu…
Urnia: a miúda tem razão, porque é que tens de estar sempre a...

Eu estava a ser o catalisador de uma discussão que nem compreendia porque acontecia. No entanto, num acto de benevolência, o membro da família mais prometedor na sucessão da sua família, interveio por mim, calando toda a sala.

Grizaldo: chega de discussão! Não vamos estragar um momento por causa de uma coisa estúpida, ele salvou a minha irmã e por isso estou-lhe eternamente grato.
Yorgsh: esse discurso era meu!
Kandia: Cala-te Yorgsh! O teu filho tem razão e não venhas gerar mais confusão por causa disso. Já bastou da outra vez por causa das peúgas!
Urnia: pois bem, mas nós não temos cama para onde ele dormir.
Kandia: tratamos disso depois, ainda temos de ir arranjar carne para o jantar, Unga, vens connosco
Yorgsh: mas aquele era o meu dircurso.
Unga: eu não queria deixar o Skor sozinho.
Skor: não te preocupes eu enrosco-me ai num canto.
Grizaldo: não te enroscas nada! Vens comigo e o meu irmão, a gente mostra-te ai as coisas.

Assim foi decidido e assim foi feito, a Unga despediu-se de mim e cada um de nós for para o seu lago, os dois rapazes mostraram-me todos os locais influenciáis da região. O terreno de treinos, o campo de arco, a casa de uma antiga vidente, a loja de gomas, o poço, local que me chamou muito a atenção e uma taberna. Segundo os rapazes me disseram, precisavam de ir buscar umas coisas á taberna e então entramos. Era um local acolhedor, mas não me está a apetecer fazer uma grande descrição, portanto eles sentaram-se no balcão e eu enrolei-me perto dos pés do Bron, nisto um outro rapaz de aspecto galante com uma estrutura óssea finíssima e um sorriso de orelha a orelha aproxima-se dos meus dois companheiros e cumprimenta-os.

Rapaz: então caros amigos, Bron, Grizaldo, como estão neste belo dia?
Grizaldo: nós não somos teus amigos Torg, tu só estás a falar connosco porque queres saltar para cima da nossa irmã.
Skor: frio.
Torg: uh, o cão fala! Então foi este rafeiro que salvou a vida á delicada Unga?
Skor: ei!
Grizaldo: enfia um urso vestido de ananás nessa boca minha besta, este “rafeiro” como tu dizes, fez algo que tu nunca farias e foi defender a minha irmã contra um homem-urso.
Torg: pois claro! Defende o rafeiro quando eu poderia ter-me safado muito melhor.
Brom: Torg, vai dar uma volta, ou vai haver problemas.
Torg: vejo que vocês são tudo menos cavalheiros, portan…
Grizaldo: não é o que eu digo? Olha-me para esta flor a falar, como é que isto pode alguma vez desposar a nossa irmã? Não concordas Skor?
Torg: que rudes…
Skor: eu não tenho muito a dizer, apenas não gosto das coisas que ele me chama.
Torg: o único que gatinha aqui és tu!
Skor: não por muito tempo.

Não é preciso dizer muito, começou uma rixa e este indivíduo de nome Torg saiu de rojo pelo chão a gatinhar e a chorar que nem um bebé a chorar pela mãe, claro que foi dois contra um e foi desequilibrado, mas pelo que parece o Grizaldo também não gostava dele, mas mal de tudo, parecia que ele andava interessado pela Unga. Espero que não tenha feito algo para a chatear.

Domingo, Fevereiro 04, 2007

Um lobinho sem nome

A luz fugia com o sol, enquanto a lua brilhava alto no céu iluminando o mundo com uma escuridão assustadora.

Essa foi a minha primeira visão quando acordei, perdido e confuso no meio de uma floresta que muito me era desconhecida. Sentia-me estranho, não como quando tinha comido panquecas a mais, daquelas com caramelo, mesmo muito caramelo que me deixavam quase a abarrotar. Era uma sensação de que algo estava errado comigo, não tinha sensação nas minhas mãos, tinha uma coisa estranha a tapar-me o nariz, passava-se algo de muito errado com as minhas pernas e pior que tudo, não me conseguia levantar tendo de me manter a gatinhar. E assim, sofrendo com esta estranha condição, aproximei-me de um grande lago, estava morto de sede e já que não havia máquinas de latas nesta floresta este lago era a melhor opção. Ao aproximar-me o meu coração dispara vendo que reflectido na água cristalina não estava o meu ser, mas sim um grande lobo negro que me fitava com um olhar aterrador.

Eu: mas o que é que me está a acontecer.

Por mais aterrador que tenha sido ver o reflexo a mover a boca conforme as palavras surgiam da minha boca, mais aterrador ainda foi o que se seguiu: um forte arrepio correu-me a espinha seguido de uma imensa dor, sou erguido no ar por uma força imensa que me agarra numa parte do corpo que nem eu sabia que tinha, aterrorizado que um pudesse ser um urso a aproveitar-se da minha débil situação eu tento soltar-me esperneando até que um grito histérico atravessa o ar e os meus ouvidos como mil trovões.

Mulher: AIIIII QUE LOBINHO TÃO FOFINHO!

Apercebo-me que o meu medo era em vão, pois não existiam ursos fêmeas e os flamingos não tinham mãos nem força para me levantar daquela maneira, então, confiante que quem me subjugava não era um inimigo mortal gritei em confronto.

Eu: mas tu estás doida? Põe-me no chão neste instante!

Onde fui buscar tal palavreado não sei, mas que funcionou lá isso é que não, pois em vez de me colocar no chão ela virou-me ao contraio e pude observa-la ficando tanto ou até mais em choque que ela. Ela não deixava de ser bonita, se conseguíssemos passar pela cor azul, os caninos inferiores grandes e as estranhas formações ósseas nos ombros... pelo menos era ruiva…

Mulher Azul: tu falas?
Eu: o que é de muito estranho nisso? Tens alguma coisa contra eu falar?
Mulher Azul: não… mas eu nunca…
Eu: sim?
Mulher Azul: onde é que tu aprendeste a falar?
Eu: que pergunta mais estúpida essa, então onde…
Mulher Azul: ….
Eu: … não me lembro…
Mulher Azul: é que é muito estranho ver um lobo a falar.
Eu: um lobo a falar? Estás parva não? …. Espera lá, porque é que dizes isso?
Mulher Azul: então ora, porque tu és um.

Como se não bastasse a desconfortável sensação que eu estava a sentir no meu corpo pior que tudo era receber uma explicação tão lógica e ao mesmo tempo, tão indesejada e portanto como homem que era e lobo que sou, fiz a coisa mais indicada nesta situação: esperneie e berrei que nem uma menina, algo que por fim fez a azulinha largar-me, o que não foi mau de todo. No entanto o choque continuava na minha mente.

Eu: Tu sabes o que é que isto significa? As coisas que eu não posso fazer? … As coisas que eu posso fazer… oh por Oden! O nojo!
Azulinha: por quem?
Eu: por quem o quê?
Azulinha: o nome, o nome que tu dissestes.
Eu: eu não disse nome nenhum.
Azulinha: dissestes sim!
Eu: ei! Eu sei o que disse e que não disse e eu não disse nome nenhum.
Azulinha: dissestes sim! Dissestes Oden!
Eu: então se sabes o que disse porque é que me perguntastes?
Azulinha: precisava de confirmar.
Eu:
Azulinha:
Eu:
Azulinha: … e então?
Eu: então o quê?
Azulinha: dissestes ou não?
Eu: epah, já não disseste que eu disse?
Azulinha: mas tu não confirmaste.
Eu: pronto eu confirmo!

Se calhar não devia ter dito isto, pois os olhos da azulinha brilharam como dois sóis quando confirmei aquilo que ela já sabia. Abraçou-me pelo pescoço com uma força tão grande que eu pensei que o meu pescoço ia partir-se logo ali. Foi uma reacção estranha de facto, mas não pior do que a minha estranha condição, a transformação do meu corpo e da minha mente e uma estranha amnésia que me tinha feito esquecer de quem eu era, mas não de como era o meu antigo ser. Por entre memorias vagas de uma floresta esquecida, uma corte negra, decisões diabólicas, sumos, uma corte menos maligna e mais parva, um caçador de demónios e uma criatura loira que tanto tinha de estranha como de fascinante, eu perco-me naquela abraço apenas por ser acordado por uma pergunta que como muitas outras sobre mim, não tinham resposta.

Azulinha: o meu nome é Unga, posso saber o teu?
Eu: hmm… não me recordo.
Azulinha: e que tal se eu te chamar Skor? É o nome que sempre quis para um animal de estimação
Skor: um quê? Nem pensar que me vais torturar com aquelas coleiras e a dar-me rações que têm ar de ser pedaços de terra com um cheiro nauseabundo?
Unga: ……o quê?
Skor: … deixa estar… Skor é um bom nome
Unga: ainda bem que gostas!

Eu virei-lhe as costas e fui beber a tal água do lago. Era estranho puxa-la para a boca com a língua, mas algo dava-me a certeza que já tinha passado por coisas mais estranhas e enquanto bebia senti um toque gentil naquele pedaço de mim que agora era difícil de esquecer que existia, rodei a cabeça para trás e berrei:

Skor: qual é o teu fascínio por a minha cauda?
Unga: já a vistes bem? É tão fofinha tão peluda, podia estar agarrada a ela o dia todo!

Movi a cauda para fora das mãos dela e aproximei-me dela, observando os seus olhos que continuavam a brilhar por a mesma estranha razão.

Skor: há algo que tu não me estás a dizer.
Unga: verdade, mas só te vou contar se concordares em voltar para a minha aldeia comigo.
Skor: tens algum galinheiro por lá?
Unga: sim.
Skor: então não posso recusar! Vamos!

E assim partimos seguindo um rumo que eu desconhecia, por entre parvoíces e correrias chegamos à tal aldeia. E o cenário não foi bonito, fumo surgia das varias cabanas, encontravam-se corpos no chão, baldes derrubados, jarras de flores deslocadas do seu sitio e varias criaturas iguais á minha nova amiga corriam de um lado para o outro apagando os fogos, enquanto outros enterravam os corpos e outros davam gomas aqueles que trabalhavam.

Um arrepio percorreu-me a espinha. Este ataque tinha sido demasiado familiar para eu ignorar.